remix
Lembro-me de comentar que a anestesia era rápida. Senti que me trocavam as veias por um formigueiro que me ia apanhando a sensibilidade no caminho. Não sonhei com nada, não sei por onde fugiu o tempo. E não me lembro quando me apagaram o mundo.
Mas lembro-me das incontáveis noites em que o sonho se repetia: um mágico, um desejo, e sempre o mesmo pedido da minha parte.
Acordar para o meu quarto e deitada na minha cama era duro nessas manhãs, mas sempre mais fáceis eram as noites em que me sussurravam, mentindo carinhosamente, que era perfeita.
Portanto não é de admirar o aperto na garganta e as lágrimas presas, a custo, nos olhos, enquanto a Dra. , para mim muito superior ao tal mágico, apontava uma data para operação na sua agenda. E também não acho estranho ter andado por uns dias desconfiada e cheia de medo de acordar.
Quando acordei de verdade a enfermeira estava a mudar a garrafa do analgésico. Não era a minha cama, não estava no meu quarto e não tinha sonhado com nada. Sentia dores mas lembro-me de sorrir muito. Duvido que venha a ter um acordar mais feliz na minha vida.

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