ouvido absoluto

Não sei se escrevo por mim ou para ti e por isso deixemos que isto não seja uma carta e que esta não carta não tenha destinatário.
Aliás, deixemos até de falar de mim e de ti.
Há coisas raras que acontecem, sem sabermos sequer que são raras e, com essa falta de conhecimento, não é de estranhar que não lhe demos o devido valor. São coisas que acontecem e que, sem estarmos à espera e sem que nos apercebamos, se vão tornando rotinas que, de tão espontâneas e naturais serem, se tornam familiares.
Mas não é sobre essas coisas raras que quero escrever. Até porque nem tenho capacidade para tal.
Há coisas menos raras que vão acontecendo.
Coisas boas, coisas más e coisas por aí. Coisas que são ilusão nossa, ou coisas em que somos nós os ilusionistas e coisas que são reais mas que, por uma ou outra razão, não atravessam o coração.
E parece-me incrível que sejam poucos os momentos em que se conseguem distinguir, sem ajuda, as coisas raras das coisas menos raras. Talvez seja falta de conhecimento, talvez a raridade também seja uma ilusão.


Coisas raras não esperam que nós demos por elas. Aparecem sem hora marcada e nós temos de estar lá para apanhar o avião, para tirar a fotografia naquele segundo, para ganharmos a lotaria, para fazer aquela amizade, para ter a sorte naquele exame, para olhar no momento certo... 
E, se deixamos a coisa rara ir sem corrermos para a apanhar, o mais provável é ela virar costas e ir ser raridade para outro lado.
Aí já não se pode fazer nada, nem sequer gritar por ela. Resta esperar e ser sortudo uma próxima vez.

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