Paragem de silêncio
Portugal é definitivamente um país hospitaleiro. Quem pode dizer o contrário?
Quem ainda tiver dúvidas que olhe então para uma paragem autocarro, em hora de ponta ou não, e observe bem o movimento durante uns meros dez minutinhos.
Local de observação: Queijas.
Hora: (Achavam mesmo que vos ia dizer as horas em que estou em Queijas a apanhar autocarros? Nunca se sabe o que os fãs malucos podem fazer… Adiante).
Tempo de espera estimado: 25 minutos de pura diversão.
Presentes na paragem: Eu e um senhor com os seus 60 anos de idade.
Passa um outro senhor de cabelos brancos:
“Então Tó? Ainda aí?”
“Eheh. Boa tarde!”
Pronto, já sei que se chama Tó.
Passam cinco minutos:
“Posso-lhe fazer uma pergunta?” – pergunta-me o Tó.
“Diga, força”
“Porque é que vocês jovens têm dois telemóveis?”
“Bom, às vezes dá jeito ter duas redes diferentes para gastarmos menos dinheiro a falar com os amigos”
“Ah! Pois… Faz sentido. O meu neto…”- novo dado: tem um neto – “…de oito anos…”- tem oito anos – “… diz-me que precisa de um novo telemóvel porque quer ter lá um dos com o programa da TMN.” – o miúdo quer dois telemóveis e o senhor não sabe nada sobre telecomunicações – “A minha esposa usa um dos baratos e eu também só uso um…” – o senhor tem uma esposa, e têm cada um um telemóvel – “…porque é que hei-de pagar ao rapaz mais um telemóvel?”.
Ok, acho que já acabou de desabafar, lanço-lhe um sorriso e volto olhar para o livro.
“Sabe, a minha neta já leu isso. Ela é muito inteligente…” – ok, neta, inteligente (interessante…) – “… andou a tirar um curso lá para cima, é Jornalista, das melhores.” – neta com curso de Jornalismo, avô babado e, provavelmente, exagerado.
Não vou relatar-vos o resto da conversa mas passaram mais uns bons cinco infindáveis minutos nos quais fiquei quase a saber a data de nascimento da rapariga loura jornalista que saiu ao paizinho.
Entra na paragem uma senhora cheia de sacos do Pingo Doce. Levanto-me e dou-lhe o lugar (ahah, Sofia a gabar-se dos seus hábitos de boa cidadania).
“Olhe, desculpe…” – claro que desculpo, grrr – “… já passou a 2?”
“Não” – digo-lhe sorrindo e baixo cabeça mergulhando no livro.
“Obrigada. Então sento-me aqui doem-me as pernas. Sabe, é que…”
Desisti. Fechei o livro. Olho em frente, lá vem a (inserir número de autocarro que mais se identifica com a vossa história).
Despeço-me do simpático senhor, entro no autocarro esperando ansiosamente por um momento de silêncio para leitura, mostro o passe e cumprimento o condutor (o careca, ahah).
Sento-me ao lado de uma senhora magra. Passam dois segundos.
“O tempo hoje tem estado mau. Devia de vestir mais qualquer coisa, ainda se constipa”.
Estado: Damn

lol.. as pessoas têm necessidade de falar, se calhar é o seu único desabafo durante todo o dia. A paciência é uma virtude e a mim parece-me que a tens :)
ResponderEliminarEu tenho consciência disso :) Isto sou só eu a ser paravalhona. Obrigada
ResponderEliminarHumm...Interessante.
ResponderEliminarDiana B. *
Compreendo a tua necessidade de silêncio mas deves ter algo que leva as pessoas a dialogarem contigo. Comigo acontece muitas vezes isso quando vou às compras. Quando dou conta já me contaram a vida toda. Começam por me perguntar: Menina (com 46 anos rsss) não consigo ver o preço deste detergente, quanto custa? Informo e, a seguir, conseguem ligar o preço do detergente à vidinha que anda a rolar lá em casa e quando dou conta podia publicar a história daquela senhora. As velhotas, penso que elas têm mais necessidade que eles, devem passar dias e dias sem poderem manter diálogo com alguém. Qualquer pessoa serve para as aliviar. Quantas vezes estou cheia de pressa e acabo presa a uma vida de solidão. A solidão tem um peso enorme.
ResponderEliminarBeijinhos
Fia tens textos bastante interessantes, e este é um dos mais interessantes que tens.
ResponderEliminarParabens!
Ahah eu tenho destas conversas é com os taxistas quando vou para casa ás tantas da manhã xD.
ResponderEliminarDuarte
Post muito giro, acho sinceramente que tens talento como cronista.
ResponderEliminarContinua o bom "trabalho" (deduzo que a escrita te dê tanto prazer como a leitura para os leitore)
Olha, só espero que não tenhas fechado o livro com tamanha brutalidade que a senhora tenha pensado qualquer coisa feia sobre ti... Mas ao menos cumprimentaste o condutor, o "careca"..hehe
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