prima donna

Querida Primavera,
Já te esperava há mais de um mês. Naquele dia fiz a cama de lavado, abri as janelas e pus as tshirts a jeito para darmos os nossos longos passeios. Pus os óculos na cara, cortei o cabelo e fui esperar-te ao nosso sítio do costume.
Esperei umas duas horas. Nem sinal teu.
Durante os dias seguintes nada disseste. Perdi a conta às vezes que me perguntaram por ti, e eu, magoada, respondia sempre torto. "Antes chuva e frio!", "Sei lá, vê as previsões".
Quando por fim apareceste trazias na mão uma mala cheia de perdões. Mas não te dei ouvidos. Nem quando, numa manhã mais solarenga, me acordaste com música nova e um pacote de trident de melancia.
Não, não te quis perdoar.
Até que um dia, depois de me mostrares as flores da manhã, passaste por mim já tarde, sorriste e pegaste na minha mão como se sempre a tivesses conhecido e nunca mais a fosses largar. Só aí te senti chegar, só aí desejei que não partisses.




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