CD-RW


(Quem aguentar até ao fim recebe um chocolate. Dos bons!)

Ok, a memória é uma coisa assustadora: cheia de falhas e manhas, manias e birras de puto.
("A memória"? Agora que escrevo isto não sei se seria melhor usar o plural. Mas "as memórias" também não me soa bem porque, afinal, quando acaba uma memória e começa a outra?).
Confirmou-me noutro dia um TED talk que todas as memórias são reconstituições  
All our memories are reconstructed memories. They are the product of what we originally experienced and everything that's happened afterwards. 
Não sou nenhuma especialista para falar destes assuntos mas deixem-me confessar que esta ideia me assusta realmente. Já de si é difícil registar algo que queiramos muito como a matéria de um livro, os números de telemóvel importantes ou até mesmo até uma lista de compras que ninguém assume a responsabilidade por ter ficado em casa. Mas o problema não está aí, porque pelo que se pode apanhar noutros TED talks, há exercícios para resolver esses problemas.
O que me atormenta é a ideia de que, alguma memória importante e impossível de se reviver, depois de registada, pode ser facilmente alterada por nós e a informação original nunca mais é recuperada.
Isto é... Sabem a imagem que tinham de uma viagem que fizeram? Aquela espetacular em que fizeram tanta maluquice? Essa! Pois, pode não ter sido tão boa assim! De cada vez que se lembram dessa viagem acrescentam-lhe uma flor aqui, um sentimento ali, uma música de fundo acolá e a imagem já se alterou tanto que até há hipótese de terem inventado muitos factos que não aconteceram realmente!
E isto ao contrário. Um acontecimento que até foi bom, mas quando o recordam num dia mau tiram-lhe brilho ou umas gargalhadas, que depois juram a pés juntos que nunca deram.
"Será que meti na cabeça que aquela amizade teve dia mais felizes que tristes?"
"Será que não gosto mesmo de *inserir comida detestada*?"
"Será que aquele cheiro era mesmo assim tão mágico?"
"Será que *inserir local de férias de infância*  era assim tão espetacular?" (ok, nada de exageros, Cabanas é inquestionável)
"Será que foi assim tão grave o que me fez?"
"Será que ..."
Mas, por outro lado, se fossemos um computador, capaz de citar datas e horas de acontecimentos precisos, que seria feito daqueles momentos em que desejamos que o mundo páre só para registarmos aquela exacta imagem?
Sim, alteramos até esses momentos inconscientemente mas de que valeria guarda algo para sempre sem nunca o usarmos?
É como a história dos plásticos que vêm com as coisas novas. Podemos não destapar completamente uma memória para não a riscarmos mas se não a abrirmos totalmente para a revivermos vezes sem conta de que vale registá-la uma primeira vez?



Comentários

  1. Desculpa, mas não consegui perceber a ideia.

    ResponderEliminar
  2. A ideia é ponderar sobre o chamado misinformation effect (mais info sobre isto aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Misinformation_effect). Basicamente, o cérebro humano não guarda memórias como gravações perfeitas. Sempre que "acedes" a uma memória estás na verdade a reconstrui-la a partir de dados incompletos, que complementas com outras experiências, não necessariamente relacionadas com a memória em si. É por isto que, por exemplo, duas testemunhas de um mesmo evento podem discordar sobre algo desse evento sem nenhuma achar que está a mentir.

    Quanto ao post em si, concordo com a última ideia de que simplesmente não recordar o passado para evitar "contaminá-lo" com a nossa própria influência não é uma boa solução para este problema. Mas "se fôssemos um computador" capaz de guardar e lembrar experiências sem a subjectividade inerente à memória humana, então isto seria resolvido.

    Neste caso, "que seria feito daqueles momentos em que desejamos que o mundo páre só para registarmos aquela exacta imagem?" era respondido com "os momentos estavam lá na mesma, mas correspondiam melhor ao que realmente aconteceu".

    ResponderEliminar
  3. mas David, às vezes até é melhor acrescentarmos coisas boas às memórias.. esta história tem muitos pontos de vista ^^

    ResponderEliminar

Enviar um comentário